Querido amigo Ivan Pinheiro – sec. geral do PCB
Como te disse, escrevo uma carta pública, dirigida a ti, analisando as eleições como um todo, o posicionamento e atuação do PCB nas eleições presidenciais, incluindo a questão do voto crítico, mas assim mesmo, um voto, em Dilma, e explicitando as minhas colocações sobre a política partidária e sua relação com os Movimentos Sociais e Sindicais, assim como em relação ao dia a dia popular, relação esta, a meu ver, totalmente esgarçada, senão inexistente.
Com isso, espero estar contribuindo para a reflexão política, tão mais necessária agora, neste grave momento da vida dos brasileiros e dos trabalhadores do mundo todo, mesmo que a maioria do Povo não perceba isso. Mas estamos aqui não para ir para o abate, acompanhando quem está sendo enganado, pois mantido na indigência cultural e sob gargalo econômico intransponível no capitalismo, com ou sem colaboração de classes, apesar das migalhas oferecidas. Nem o Populismo "seguidor" (manipulador das massas), e nem o Vanguardismo Doutrinário (em geral em franca tentativa de aparelhar o Movimento Social, em benefício próprio e paroquial).
Esclareço a quem vier ler esta carta, que me ocupo do diálogo público com o Ivan Pinheiro e o PCB, pois fui eleitor dele no primeiro turno presidencial, por entender que deveria saudar o PCB pela sua dita perspectiva de superar a "práxis" política que permeou a conduta do Partidão nas últimas décadas e que, nas próprias palavras do sec. geral do PCB "culminou com a quase extinção do Partido, em 1992" (no pré lançamento de sua candidatura, na ABI, Rio) . E sabendo eu, que sendo o PCB, um Partido de história e inserção internacional, e com dinâmica própria, não se trata de uma "caça às bruxas" interna, mas sim de uma perspectiva de reorientação política, sem renegar antigas lideranças e sem rejeitar sua própria história, mas com leitura crítica sobre ela.
Mas, sabedor que é verdadeira a afirmação de Ivan Pinheiro, referindo-se ao PCB que "somos marxistas leninistas, mas não dogmáticos, e permeáveis à discussão de temas, inclusive na questão do Todo Poder aos Sovietes" (em alusão ao abandono desta perspectiva, por Lênin, acentuando a sua tese do Partido Único e Estado Dominante, tese também abraçada por Trotsky, afinal), para uma pessoa como eu, fortemente influenciada por muitas teses dos Anarquistas Originários, esta perspectiva de discussão abriria caminhos para parcerias e confluências políticas, com o PCB, quem sabe nos abrindo os olhos para a necessidade de exercitarmos aqui no Brasil, o que foi o período de luta contra o czarismo na Rússia, que pôs os Bolcheviques e Anarquistas, nos mesmos combates e contra os mesmos inimigos, e contra a Colaboração de Classes como método de luta.
E também votei no PCB, por entender que o Partidão lutou para manter alguma união da esquerda partidária, mesmo fazendo concessões, por exemplo, a estar junto ao PSTU, que mantém o discurso do Império, contra o governo Venezuelano que, no mínimo, manteve o norte da América do Sul a salvo de uma completa ocupação, inclusive militar, dos EUA, além de, sob a liderança de Chávez, manter uma iniciativa política, que acua e tirou poderes da burguesia venezuelana. Mesmo sabendo nós que muito ainda há que se avançar por lá. E como...
Mas, com a inflexão à direita e eleitoreira de Heloísa Helena, em apoio à Marina, e com a postergação da decisão do PSOL, apenas para o início do ano eleitoral, o PCB teve de lançar a sua própria candidatura. Mesmo assim, pelo terço final da campanha ainda tentou reconstruir uma composição com o PSOL o que, a meu ver, foi solapada por interesses menores que persistiram nos negociadores do PSOL, também a meu ver, contra os interesses do próprio Plínio, ou melhor, das melhores perspectivas de sua campanha, afinal pífia, com apenas 1% dos votos e sem que o PSOL consiga transferir para Dilma, mais do que a metade deles, visto o racha interno entre o Voto Nulo e esta votação na "menos ruim" e, principalmente, pela recusa de pelo menos metade dos eleitores do PSOL em apoiar Dilma, mesmo com o "voto crítico". Aliás, recusa esta, também de Plínio que, a meu ver, manteve a sua coerência.
E, sabendo todos, é bom que lembremos, que o Voto Nulo, Branco ou o Absenteísmo, de certa forma, favorecem a eleição de Dilma (pela redução dos votos válidos), mas por outro lado, e este qualitativo, expõe publicamente uma grande insatisfação com as políticas partidárias e do jogo do Poder Institucional, abrindo caminho para outras afirmações dos eleitores e Movimento Social, independente da agenda eleitoral, ou conveniências político partidárias, que não conseguem uma boa reflexão na área popular, por distantes que estão do dia a dia das pessoas, e o vício doutrinário que persiste.
Assim, sob este cenário e demais explicações devidas e expostas, passo a análise da campanha pelo PCB e a conclusão deste período eleitoral, com as opções partidárias já determinadas, persistindo de minha parte, a intenção de contribuir para a reflexão política que, repito, anda escassa no país, a meu ver.
1) O PCB optou por um desenho de anti candidatura, onde a denúncia sobre o modelo econômico, injustiça social e subserviência internacional ao capital seria a tônica, além da denúncia do seqüestro da instituição do Voto. Ainda acentuando a necessidade de um Voto de Protesto, como foi dito pelo próprio Ivan Pinheiro, no primeiro programa do Partido na TV.
Sabendo das dificuldades de se fazer um Programa com poucos recursos, etc., a meu ver e por causa dos escassos 55 segundos diários, o tom da campanha deveria ser mais panfletário (com bom conteúdo informativo) do que doutrinário, como foi, indiscutivelmente.
A gradual substituição do "Voto de Protesto" pelo eslogan "O Brasil só muda com uma Revolução", indica o viés mais doutrinário do que panfletário nos 55 segundos da TV e rádio. E isso, a meu ver, não, permitiu um diálogo com o eleitor, pois já determinava o que é bom para todos, em vez de chamar para um Voto de Protesto, simples, fácil e contundente, muito mais necessário agora, do que uma proposta doutrinária impalpável para a grande massa dos eleitores, que é a tal Revolução (seja lá o que isso for...). Aliás, o furdunço ideológico em torno do que é o tal Socialismo, é o que me faz concentrar na Luta Anti Capitalista, na certeza que é no caminho que vamos achar o que queremos, e não seguindo bulas ou doutrinas ditas científicas, muitas sem a menor comprovação, apenas fruto da elocubração ou cópia rasurada feita por "geniais" ideólogos. E não me refiro aqui aos geniais originários, mas sim aos seus diluidores.
2) Porém, as questões que considero mais importantes a serem analisadas agora, em relação às eleições são:
2.1 – Foi achachapante, a derrota fragorosa dos Partidos de Esquerda nestas eleições, mal somando 1% dos votos, se tanto. A este fato, mesmo considerando o total domínio e seqüestro do instituto das eleições, pelas corporações políticas e econômicas, creio que o não consenso sobre a necessidade de um Polo de Esquerda Não Conservador (sob o ponto de vista programático) é que está no âmago e origem do fracionamento e pouca expressão da esquerda político institucional brasileira.
Primeiro com Heloísa Helena, Luciana Genro e seus apoiadores (estas pagaram nas urnas, o fato de quererem "costear o alambrado eleitoreiro" em um contexto de Partido Ideológico, como é o PSOL , ou melhor, as forças hegemônicas do aparelho do Partido, sem que eu esteja analisando ou elogiando as suas ideologias e "práxis" política).
A meu ver, é impossível (e refiro-me em relação às eleições majoritárias - para os cargos Executivos), que haja alguma brecha que nos encoraje a dizer ao Povo que podemos mudar o país, apenas, ou principalmente participando de eleições (afinal seqüestradas), e sem manifestações massivas da População, em torno de seus interesses e outras formas de luta mais presentes e visíveis, e até alguns arranca rabos nas ruas das cidades e no campo.
2.2 – Portanto, a meu ver, foi amplamente equivocada, a decisão do PCB (a exemplo da maioria do PSOL, exceto Plínio isoladamente e Heloísa Helena, em franca desarmonia, após ter se recusado a fazer a campanha de Plínio), em apoiar Dilma, sob qualquer malabarismo lingüístico, que apenas tenta remendar a incapacidade de ação una, neste fato político das eleições, importante apenas se soubermos o que fazer com ele, e a nosso favor. Se as eleições estão seqüestradas, como entendemos, dela só podemos e devemos participar, sob Protesto e Denunciando a farsa montada. Ou seja, semeando a discórdia no mundo da burguesia, tarefa primeira de um Revolucionário.
Primeiramente, pela conseqüente entrega de bandeja, para as conservadoras Marina Silva e Heloísa Helena, o espólio do patente Voto de Protesto ao que está aí, que somaram cerca de 45% dos votos (25% de brancos, nulos e absenteísmo + 20% de Marina), que ampliou o fenômeno de encarnar esta insatisfação com a farsa eleitoral (tal e qual Heloisa Helena em 2006, em menor escala), infelizmente de forma quase invisível, pois não articulada. Marina e o PV, aliás muito espertamente, capitalizaram esta insatisfação pois, na verdade têm um programa econômico mais conservador do que o do PSDB e PT, além de sofrerem o mal que assola a vida partidária e governamental do País: Falta de Povo Protagonista.
Depois, esta opção de Voto na "menos ruim (runha, lá na roça)", encerra uma contradição insanável, sob o ponto de vista do raciocínio dialético, com a perspectiva do primeiro turno, quando o PCB colocou-se como uma ANTI CANDIDATURA (mesmo não tendo resistido à tentação de descrever "as propostas que temos" ou "no nosso programa de governo..", poucas vezes, é verdade), portanto não cabendo a crença que o PCB, então, tenha alguma perspectiva sobre o Processo Eleitoral. Portanto novamente, não cabendo esta profissão de Fé da "menos ruim", igualando-se à esquerda do PT, PC do B, PDT, PSB e rebotalhos, e a maioria do aparelho partidário do PSOL. Afinal, a campanha do PCB era prá ter sido, ou não, uma denúncia ao seqüestro dos institutos republicanos, entre outros?
Se, em algum momento, eu tivesse pensado que Dilma era "menos pior do que o Serra", eu teria feito a campanha do "voto crítico", desde o primeiro turno. Disso não tenho dúvidas, pois tentaria elegê-la já no primeiro turno, obviamente. A não ser que eu fosse adepto ao cabotinismo político.
Assim, o PCB com sua opção de "Derrotar Serra nas Urnas, e Dilma nas Ruas", encerra grandes contradições. A saber:
1) A tese da "menos pior" (pois aí seria mais coerente o voto crítico, no primeiro turno) e,
2) Um outro problema que se apresenta com esta opção por Dilma pelo PCB, que é o de "derrotá-la nas ruas...". Aí cabe a pergunta: Com quem, cara pálida? Pois todos sabemos que Lulla e agora Dilma são governos da Anestesia Social, da compra a dinheiro de muitas lideranças do Movimento Social e Sindical, quando não dos próprios Movimentos, com a oferta de migalhas não licitadas, através de ONGs, tipo "correia de transmissão" e da(s) Igreja(s) não mais só a católica, além dos clérigos e ex clérigos adesistas de plantão, sempre juntos no rebaixamento da discussão, e pela supressão de direitos elementares à pessoa humana, como na questão da LEGALIZAÇÃO do Aborto (dentro de uma estratégia global de saúde pública) e da Homofobia que lhes são particulares. E a mando do Capital Internacional, como condição de Lulla e o PT experimentarem a vertigem do pseudo Poder.
Portanto, para mim, esta ginástica vernacular do PCB (assim como a do PSOL, aliás muito parecidas), apenas nos mostra a falta de condições internas do Partido em se conduzir unanimemente, em uma questão relevante como esta, o que me remete à incapacidade destes Partidos em se fazerem vanguarda de alguma mudança. Assim, prefiro me resguardar em uma relação parceira mais íntima com os Partidos, mas os mas os chamando para a luta, sem que prepondere o cenário político institucional, afinal, armado e maquinado para manter as coisas como estão, embora tenham candidatos que pareçam diferentes.
Não ignoro, como muitos falsos auto denominados anarquistas, libertários, autogestionários e outros do mesmo ramo, a existência dos Partidos, que se consideram de esquerda. Ao contrário, tento dialogar com eles, como fazemos hoje, com diálogo franco, mas crítico às tendências de comportamento "vanguardista", em clara tentativa de condução do Movimento Social, como experimentamos hoje, por exemplo, no Comitê dos Desabrigados das Chuvas de Niterói, no qual atuamos de forma voluntária, não só de forma intelectual, mas também na formação da "frente de massas" (e não me refiro a ravioles ou talharim, exatamente).
Mas, a minha perspectiva é do diálogo e ação entre companheiros como você, o Plínio, entre outros, que impõe a franqueza que tive com ele quando escrevi sob a necessidade dele entender a armadilha que lhe preparavam, o alçando à categoria de "entrevistável" (mesmo com 1% dos votos), usando-o em uma briga que não lhe dizia respeito, pois entre Serra e Dilma. E não lhe dizia respeito mesmo.
Assim, prezado amigo Ivan Pinheiro, quero te dizer que o PCB, aliás como o PSOL, tomou sua decisão sem uma mínima ausculta dos seus poucos eleitores (o que não seria tão difícil, afinal) o que, a meu ver, foi um equívoco grande, pois se, como me dissestes que "a consulta do PCB foi ampla e apontou para o voto crítico, em quase todo o país", esta foi feita de forma restrita ao Partido, sem movimentar onde pudessem, por exemplo, uma plenária de eleitores que poderiam se manifestar, por exemplo, em caráter CONSULTIVO (pois, afinal, o PCB não é a Casa da Mãe Joana, e tem suas instâncias decisórias...).
A confirmação deste equívoco político está na manifestação da maioria dos eleitores (e não militantes) do PCB (assim como os do PSOL), que se recusam a votar em Dilma, já não votando mesmo no Serra, distanciando-se dos principais e mais visíveis militantes da esquerda partidária que se pretende não colaboracionista, com muitos destes eleitores sentindo-se traídos (não é o meu caso, como sabes), e outros muito desanimados com a Política Partidária (meu caso, como sabes).
Todo o parlamento Psolista vai votar em Dilma. A maioria de seus eleitores não vai. Isso vai trazer conseqüências daqui há dois anos, com certeza, pois creio que esta posição do parlamento do PSOL tem muito a ver com a sinalização da opção pelo jogo eleitoral, de alianças eleitoreiras, etc. e tal. E, quem vota em Dilma, mesmo "criticamente", a meu ver, também votaria em Sérgio Cabral Filho, caso houvesse segundo turno, para ficar só no caso do RJ. Ou seria um segundo turno manco e inconseqüente, votar em Dilma e não votar em Sergio Cabral.
Ouvi com atenção as suas palavras sobre os protestos populares na Europa, com você afirmando que "há um ano, nada disso estava na pauta", como forma de dar um alento para, quem sabe, uma nova onda vindoura de Movimentação Política no Brasil. Quero te dizer Ivan, que discordo. Creio com alguma certeza, que experimentaremos um aprofundamento da Anestesia Social, sob o novo eslogan "eles querem acabar com Dilma, para impedir o retorno de Lulla...". Ou, com TODA a certeza, te afirmo que creio que se houver uma eclosão de Revoltas e Movimentação Política Popular por aqui, CERTAMENTE não terá sido por obra e graça dos Partidos de esquerda que temos, ao menos tal como estão. E te lembro também, que a onda de revoltas na Europa, se dá em um continente em que a Direita tem cara, e não máscara, como por aqui.
*Raymundo Araujo Filho é médico veterinário homeopata que acha que: "Apoiar a Direita Com Máscara, achando que com isso combatemos a Direita Sem Máscara, não é bom caminho". Tenho a certeza disso e estou fora!
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