| Um palhaço de laboratório A candidatura de Tiririca foi planejada por políticos e marqueteiros profissionais para "puxar votos" para candidatos que, sem esse artifício, dificilmente seriam eleitos Fernando Mello Na noite do dia 3 de outubro, quando o Tribunal Superior Eleitoral anunciar o resultado das eleições para o Legislativo, o candidato a deputado federal mais votado do Brasil deverá ser Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, um palhaço profissional que se apresenta como "abestado" e declara não ter a menor ideia do que significa o trabalho parlamentar. A previsão do instituto Datafolha é de que cerca de 900 000 eleitores de São Paulo digitarão seu número nas urnas. Parte o fará como um "gesto de protesto", parte por deboche e parte por indolência (procurar um bom candidato, convenhamos, dá trabalho). Não será a primeira vez que esse tipo de gaiatice ocorre. São Paulo, nos anos 50, "elegeu" para vereador um rinoceronte recém-chegado de um zoológico carioca, o Cacareco. A diferença, desta vez, é que, ao contrário do fenômeno Cacareco, a candidatura de Tiririca foi minuciosamente planejada por políticos e marqueteiros profissionais - e com objetivos tão claros quanto maliciosos. Tiririca é um cacareco de laboratório. Ele foi projetado para "puxar votos" para candidatos que, sem esse artifício, teriam grande dificuldade para se eleger. O plano Tiririca começou a ser gestado em 2006. Logo depois das eleições daquele ano, duas legendas uniram-se em nome da sobrevivência: o Partido Liberal (PL), do mensaleiro Valdemar Costa Neto, e o Partido de Reedificação da Ordem Nacional (Prona), de Enéas Carneiro. Ameaçados de extinção diante da exiguidade dos votos amealhados, juntaram-se para dar origem ao Partido da República (PR). A partir daí, Enéas, Costa Neto e outros líderes decidiram que o caminho mais eficaz para crescer seria atrair para a sigla pessoas que as atas do PR chamavam de "candidatos com inserção social" - leia-se, famosos de qualquer naipe ou categoria. Enéas Carneiro não acompanhou o desfecho do plano que ajudou a elaborar. Morreu em 2007, vítima de leucemia. Mas deixou o picadeiro armado. Em abril de 2009, o PR paulista encomendou uma pesquisa de opinião para saber que "famosos" poderiam ter alto potencial de votação. Entraram na lista o médico Drauzio Varella, a apresentadora Sabrina Sato, o atacante Ronaldo, o ator Lima Duarte e a empresária Viviane Senna, irmã de Ayrton Senna. Sabrina ficou entre os finalistas. A apresentadora diz ter recebido "quase dez telefonemas" do partido propondo a sua filiação. Não aceitou. Drauzio Varella foi procurado pessoalmente, mas também declinou: "Respondi que não tinha idade nem vontade para me tornar político", disse a VEJA. Tiririca, então contratado de um programa humorístico da Rede Record, topou. O passo seguinte foi a construção do seu discurso de campanha. Por meio de uma nova pesquisa, encomendada ao mesmo instituto, o PR constatou que o palhaço tinha o perfil necessário para assumir na eleição de 2010 o papel que o costureiro Clodovil Hernandes havia ocupado na de 2006: o de candidato do deboche. Os slogans que o palhaço repete na TV, como o "Vote em Tiririca, pior do que tá não fica", não foram criados pelo próprio, mas pelo humorista Zé Américo, do grupo Café com Bobagem. A campanha de Tiririca, estimada em 3,5 milhões de reais, é custeada inteiramente pelo PR. Trata-se de um investimento alto, mas que deverá trazer um gordo retorno: pelo menos três deputados do PR ou de partidos coligados poderão ser eleitos de graça, de carona nos votos do palhaço. Isso ocorre por causa de um elemento do sistema eleitoral brasileiro, o coeficiente eleitoral. Ele é resultado da divisão da soma dos votos válidos dados a todos os candidatos e legendas pelo número de vagas disponíveis em um estado (veja o quadro na pág. 95). A lei determina que, se os votos de um candidato ultrapassam esse coeficiente, os excedentes devem ir para os seus companheiros de chapa - companheiros barra-pesada, no caso de Tiririca e do PR. Além do líder do partido, o mensaleiro Costa Neto, estão na fila da carona pelo menos dois deputados envolvidos no escândalo do mensalão: José Genoíno e João Paulo Cunha, do PT, que se coligou ao partido de Tiririca. A estratégia de usar cacarecos como "puxadores de voto" está longe de ser exclusividade do PR. Diversas legendas tentam emplacar o mesmo expediente. O PTN, por exemplo, aposta na eleição de uma atriz pornô e de uma periforme dançarina com nome de fruta (não tão tolamente assim propagandeada pelo senador Eduardo Suplicy, já que o PTN pertence à base aliada do governo). Já o PSB decidiu investir em craques aposentados do futebol, com muito espaço livre na agenda e no cérebro. A explicação para a disseminação da prática é simples: além de já ter se mostrado eficaz, ela custa pouco. "É mais barato convidar uma subcelebridade do que formar uma liderança política, trabalho que leva anos", afirma o cientista político Rubens Figueiredo. Com um único candidato, um partido nanico é capaz de dobrar a sua bancada em uma eleição. Cacarecos, tiriricas e abestados em geral podem ser ótimos puxadores de voto. O problema é que, atrás deles, quase sempre vem tranqueira barra-pesada. Com reportagem de Gabriele Jimenez | O roteiro da palhaçada Quem é Tiririca Nasceu no interior do Ceará, não chegou a completar o ensino fundamental e sempre trabalhou como palhaço de circo. Nos anos 90, compôs a música Florentina, que virou hit. Passou a aparecer em programas de TV De onde surgiu o PR, seu partido O PR é fruto da fusão, em 2006, do Prona, de Enéas Carneiro, com o PL, do mensaleiro Valdemar Costa Neto Como ele virou candidato Baseado no sucesso eleitoral de Enéas, o PR encomendou pesquisa de opinião para identificar potenciais "puxadores de voto" para a legenda. Entre os nomes avaliados estavam a apresentadora Sabrina Sato, o médico Drauzio Varella e o jogador Ronaldo. Todos foram convidados. Tiririca aceitou Quanto custa a campanha do palhaço 3,5 milhões de reais é a previsão de gastos declarada pelo PR Qual é a expectativa do PR Eleger, com os votos do candidato, pelo menos mais três deputados Quem pode ser eleito à custa de Tiririca Quaisquer candidatos do PR ou de partidos coligados, incluindo três envolvidos no escândalo do mensalão: Valdemar Costa Neto e os petistas José Genoíno e João Paulo Cunha Por que isso ocorre Por causa do coeficiente eleitoral, o resultado da divisão da soma dos votos válidos dados a todos os candidatos e legendas pelo número de vagas de cada estado. Ele serve para calcular a quantas cadeiras os partidos terão direito e definir o número mínimo de votos para eleger um nome. Quando os votos de um candidato ultrapassam o coeficiente, os excedentes vão para seus companheiros de chapa. Se o coeficiente em São Paulo for de 200 000 votos e Tiririca conseguir 900 000, ele garante outras três cadeiras para a sua coligação | --- MELLO, Fernando. Um palhaço de laboratório. Veja, ed. Abril, nº 2184, 29 de setembro de 2010, pág. 94 - 96. |
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