




Mas se é tão fácil mostrar a vantagem do transporte coletivo em consumo energético, poluição e consumo de espaço viário por pessoa transportada, e a cada ano se produz trabalhos mostrando estas vantagens, então temos um outro problema. Por que um transporte tão ecologicamente correto (ou politicamente correto) não virou uma preferência nacional?
Não direi nada que quem usa o transporte público coletivo não saiba.
O transporte coletivo por ônibus já foi pior, mas alguns dos velhos problemas continuam. É comum em entrepicos de dias úteis o usuário esperar mais de vinte minutos em um ponto em que quatro linhas o atendem. Ao fim da espera, podem vir dois, três ou mais ônibus, alguns da mesma linha. Nos picos é comum o usuário esperar vinte minutos ou mais por um ônibus em que possa embarcar. Idosos, deficientes físicos ou grávidas têm assentos preferenciais, mas para os passageiros "comuns" ficar em pé numa densidade de seis passageiros por metro quadrado ou mais em quarenta minutos, uma hora ou mais de viagem também é comum. Os itinerários das linhas ainda hoje fazem muitos usuários ter de usar dois ônibus. Em sábados, domingos e feriados, as esperas ficam ainda mais longas e desconfortáveis. Mesmo em dias úteis, ir de ônibus a compromissos requer uma boa folga, ou é arriscado o atraso. Há usuários que vão ao trabalho para chegar trinta ou quarenta minutos antes do horário porque com o próximo horário do ônibus vão chegar atrasados.
Mesmo as inovações não são tão revolucionárias. As integrações tarifárias ou fisicotarifárias, por exemplo, em geral são insatisfatórias, e começaram para atender as empresas de ônibus, e não os usuários. Porque no planejamento do transporte urbano em geral, são técnicos e políticos leigos que determinam o trabalho dos especialistas, e não vice-versa. Mas tais especialistas em geral bajulam a chefia e garantem o posto de trabalho e a carreira indo de casa para o trabalho e do trabalho para casa em um belo carro.
Uma viagem de ônibus de uma hora em pé talvez não seja tão enervante quanto dirigir um automóvel pelo mesmo trajeto, mas já causa repulsa. A queda do número de usuários de um ano para outro que se via na década de 90 passou para um crescimento risível após a bilhetagem eletrônica, ou o vale-transporte eletrônico. É vergonhoso para um amante do transporte público que um técnico fale de um crescimento de cerca de 1% no total de passageiros que só aconteceu porque alguns usuários não tiveram mais o vale-transporte de papel para usar em compras na mercearia. Ainda assim temos o transporte clandestino, e os gestores do transporte público coletivo deviam ter vergonha de ter que tratar uma Besta velha como concorrente. Como costumo dizer, as campanhas do poder público para o combate ao transporte clandestino parecem uma mocreia desagradável falando da namorada "boazuda" do ex-marido.
Certa vez, vi um material técnico que destacava que a visão tradicional do planejamento do transporte urbano (não apenas o público) era a de um problema físico-matemático, enquanto uma visão mais moderna era mais humanizada. Conversa de arquiteto marxista, mas tem um fundo de verdade. Com uma correção: a técnica, ou a Matemática, não são uma opção contrária ao humanismo; o problema não é de técnica versus sensibilidade, mas de falta de sensibilidade, não raro com falta até mesmo de técnica.
Ainda pretendo atuar na área de Transporte Urbano. Se eu tiver o cargo e a autonomia para fazer o transporte coletivo que gostaria, será um sistema que a minha mãe poderá usar com satisfação. E no qual ela geralmente poderá viajar sentada, e não apenas pela cota dos idosos (ela tem hoje 67 anos). As traseiras dos ônibus de várias cidades podem veicular um anúncio para os que não estão dentro deles falando de uma suposta boa qualidade do sistema. Mas os engenheiros de tráfego com currículos poderosos que planejam ou coordenam o transporte por ônibus fariam uma campanha publicitária tipo "Transporte coletivo, eu e minha família também usamos"?
O transporte coletivo, quem nunca usou nunca se interessou em usar; quem já usou e deixou de usar não pensa em voltar; e quem ainda usa está pensando em cair fora. E não é apenas por uma cultura do automóvel.
Walter Nunes Braz Júnior
Revisado em 4 de março de 2012
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