Carta para Chico Buarque

domingo, 24 de outubro de 2010
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From: anastudartpojo@terra.com.br
Date: Sun, 24 Oct 2010 02:02:29 +0000
Subject: FW: Carta para Chico Buarque
To:

Uma carta que eu gostaria de ter escrito....

Carta para o Chico Buarque

José Danon

"Chico, você foi, é e será sempre meu herói. Pelo que você foi
pelo que você é e pelo que creio que continuará sendo. Por isso
mesmo, ao ver você declarar que vai votar na Dilma "por falta de
opção", tomei a liberdade de lhe apresentar o que, na opinião do
seu mais devoto e incondicional admirador, pode ser uma opção.
Eu também votei no Lula contra o Collor. Tanto pelo que
representava o Lula como pelo que representava o Collor. Eu também
acreditava no Lula. E até aprendi várias coisas com ele, como citar
ditos da mãe. Minha mãe costumava lembrar a piada do bêbado que
contava como se tinha machucado tanto. Cambaleante, ele explicava:
"Eu vi dois touros e duas árvores, os que eram e os que não eram.
Corri e subi na árvore que não era aí veio o touro que era e me
pegou." Acho que nós votamos no Lula que não era aí veio o Lula
que era e nos pegou.


Chico, meu mestre, acho que nós, na nossa idade, fizemos a nossa
parte. Se a fizemos bem feita ou mal feita, já é uma outra
história. Quando a fizemos, acreditávamos que era a correta. Mas
desconfio que nossa geração não foi tão bem-sucedida, afinal.
Menos em função dos valores que temos defendido e mais em razão
dos resultados que temos obtido. Creio que hoje nossa principal
função será a de disseminar a mensagem adequada aos jovens que
vão gerenciar o mundo a partir de agora. Eles que façam mais e
melhor do que fizemos, principalmente porque o que deixamos para eles
não foi grande coisa. Deixamos um governo que tem o cinismo de
olimpicamente perdoar os "companheiros que erraram" quando a
corrupção é descoberta.


Desculpe, senhor, acho que não entendi. Como é mesmo? Erraram?
Ora, Chico. O erro é uma falha acidental, involuntária, uma
tentativa frustrada ou malsucedida de acertar. Podemos dizer que
errou o Parreira na estratégia de jogo, que erramos nós ao votarmos
no Lula, mas não que tenham errado os zésdirceus, os
marcosvalérios, os genoinos, dudas, gushikens, waldomiros,
delúbios, paloccis, okamottos, adalbertos das cuecas, lulinhas,
beneditasdasilva, burattis, professoresluizinhos, silvinhos,
joãopaulocunhas, berzoinis, hamiltonlacerdas, lorenzettis, bargas,
expeditovelosos, vedoins, freuds e mais uma centena de exemplares
dessa espécie tão abundante,desafortunadamente tão preservada do
risco de extinção por seu tratador. Esses não erraram. Cometeram
crimes. Não são desatentos ou equivocados. São criminosos. Não
merecem carinho e consolo, merecem cadeia.


Obviamente, não perguntarei se você se lembra da ditadura militar.
Mas perguntarei se você não tem uma sensação de déjà vu nos
rompantes de nosso presidente, na prepotência dos companheiros, na
irritação com a imprensa quando a notícia não é a favor. Não é
exagero, pergunte ao Larry Rother do New York Times, que, a
propósito, não havia publicado nenhuma mentira. Nem mesmo o Bush,
com sua peculiar e texana soberba, tem ousado ameaçar jornalistas
por publicarem o que quer que seja. Pergunte ao Michael Moore. E olhe
que, no caso do Bush, fazem mais que simples e despretensiosas
alusões aos seus hábitos ou preferências alcoólicas no happy hour
do expediente.


Mas devo concordar plenamente com o Lula ao menos numa questão em
especial: quando acusa a elite de ameaçá-lo, ele tem razão.
Explica o Aurélio Buarque de Hollanda, seu tio, que elite, do
francês élite, significa "o que há de melhor em uma sociedade,
minoria prestigiada, constituída pelos indivíduos mais aptos".
Poxa! Na mosca. Ele sabe que seus inimigos são as pessoas do povo
mais informadas, com capacidade de análise, com condições de
avaliar a eficiência e honestidade de suas ações. E não seria a
primeira vez que essa mesma elite faz esse serviço. Essa elite lutou
pela independência do Brasil, pela República, pelo fim da ditadura,
pelas diretas-já, pela defenestração do Collor e até mesmo para
tirar o Lula das grades da ditadura em 1980, onde passou 31 dias. Mas
ela é a inimiga de hoje. E eu acho que é justamente aí que nós
entramos.


Nós, que neste país tivemos o privilégio de aprender a ler, de
comer diariamente, de ter pais dispostos a se sacrificar para que
pudéssemos ser capazes de pensar com independência, como é
próprio das elites - o que, a propósito, não considero uma ofensa
-, não deveríamos deixar como herança para os mais jovens
presentes de grego como Lula, Chávez, Evo Morales, Fidel - herói do
Lula, que fuzila os insatisfeitos que tentam desesperadamente escapar
de sua "democracia". Nossa herança deveria ser a experiência que
acumulamos como justo castigo por admitirmos passivamente ser
governados pelo Lula, pelo Chávez, pelo Evo e pelo Fidel, juntamente
com a sabedoria de poder fazer dessa experiência um antídoto para
esse globalizado veneno. Nossa melhor herança será o sinal que
deixaremos para quem vem depois, um claro sinal de que
permanentemente apoiaremos a ética e a honestidade e repudiaremos o
contrário disto. Da mesma forma que elegemos o bom, destronamos o
ruim, mesmo que o bom e o ruim sejam representados pela mesma pessoa
em tempos distintos.


Assim como o maior mal que a inflação causa é o da supressão da
referência dos parâmetros do valor material das coisas, o maior mal
que a impunidade causa é o da perda de referência dos parâmetros de
justiça social. Aceitar passivamente a livre ação do desonesto é
ser cúmplice do bandido, condenando a vítima a pagar pelo malfeito.
Temos opção. A opção é destronar o ruim. Se o oposto será bom,
veremos depois. Se o oposto tampouco servir, também o destronaremos.
A nossa tolerância zero contra a sacanagem evitará que as passagens
importantes de nossa História, nesse sanatório geral, terminem por
desbotarem na memória de nossas novas gerações.


Aí, sim, Chico, acho que cada paralelepípedo da velha cidade, no
dia 3 de outubro, vai se arrepiar.

Seu admirador número 1,

Zé Danon
José Danon é economista e
consultor de empresas

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