From: Cicero <@terra.com.br>
Date: Thu, 28 Oct 2010 12:05:07 -0200
Subject: Bento XVI e o Silêncio dos Bispos
To:
Bento XVI e o Silêncio dos Bispos
http://padrepauloricardo.org/blog/bento-xvi-e-o-silencio-dos-bispos/
qui, 28/10/2010
Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior
Faltando três dias para a votação do segundo turno, o acalorado debate
eleitoral ganhou um interlocutor de peso: o Papa Bento XVI.
Num discurso
pronunciado, nesta manhã de quinta-feira, para bispos do Nordeste
reconhecida base eleitoral do PT de Dilma Rousseff Bento XVI condenou com
clareza ³os projetos políticos² que ³contemplam, aberta ou veladamente, a
descriminalização do aborto².
Com o discurso de hoje, Bento XVI rompe, desde o mais alto grau da
hierarquia católica, o patrulhamento ideológico que o PT vem impondo a
bispos do Brasil através de ameaças, pressões diplomáticas, xingamentos e
abusos de poder.
É conhecida a absurda apreensão, a pedido do PT, de milhares de folhetos
contendo o ³Apelo a Todos os Brasileiros e Brasileiras², em que a Comissão
em Defesa da Vida, da Regional Sul I da CNBB, exortava os católicos a não
votar em políticos que defendam a descriminalização do aborto. É conhecida a
denúncia do bispo de Guarulhos, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, de que tem sido
vítima de censura e perseguição por parte do PT (cf. Revista Veja
<http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/exclusivo-petistas-intimidaram
-e-xingaram-dom-luiz-bispo-de-guarulhos-que-recebeu-ameacas-mas-ele-nao-se-i
ntimida-%E2%80%9Crecomendo-voto-contra-dilma-por-causa-de-suas-ideias-favora
veis-ao-abor/> ). É arquiconhecida a prisão de leigos católicos que
realizavam o ³ato subversivo² de distribuir nas ruas o documento dos bispos
de São Paulo.
O Papa convida os bispos à coragem de romper este patrulhamento e falar. Ao
defender a vida das crianças no ventre das mães, os bispos não devem temer
³a oposição e a impopularidade, recusando qualquer acordo e ambigüidade².
O pronunciamento de Bento XVI ainda exorta os bispos a cumprirem ³o grave
dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas². E, numa clara
alusão a uma das propostas do PNDH-3 do PT, se opõe à ausência ³de símbolos
religiosos na vida pública².
Com seu discurso, o Papa procura evitar que o Brasil continue protagonista
de um fenômeno que seria mais típico do feudalismo medieval, do que de uma
suposta democracia moderna. De fato, durante a Baixa Idade Média, era comum
que os posicionamentos e protestos mais decididos fossem os do Papa,
enquanto os do episcopado local, mais exposto às pressões e ao poder
imediato dos senhores feudais, eram como os de um cão atado à coleira. Pode
até ensaiar uns latidos, mas quem passa por perto sabe que se trata de
barulho inofensivo.
Ao apagar das luzes da campanha de segundo turno, o Pontífice parece
preparar o terreno para que a Igreja do Brasil compreenda, sejam quais forem
os resultados das eleições, que é inútil apelar para um currículo de
progressos sociais e de defesas dos oprimidos do Partido dos Trabalhadores,
quando seu ³projeto político² está tão empenhado em eliminar os seres
humanos mais fracos e indefesos no ventre das mães.
Segue abaixo o discurso do Santo Padre Bento XVI
Amados Irmãos no Episcopado,
«Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus
Cristo» (2 Cor 1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso
zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5.
Lendo os vossos relatórios, pude dar-me conta dos problemas de caráter
religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos
diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de
esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me
dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo.
Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes
âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral
da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a
Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o
Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação
à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e
da paz social, conforme à sabedoria divina.
Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é
próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se
empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito
da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf. Deus caritas est,
29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto
vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças
morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna.
Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o
exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em
matérias políticas (cf. GS, 76).
Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto
daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a
escolha de uma determinada ação intrinsecamente má e incompatível com a
dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de
qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria
totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos,
econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à
vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38).
Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem
é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou
terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a
descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático que só é
verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa
humana é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitæ, 74). Portanto,
caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição
e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos
conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem, 82).
Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e
sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária ‹ como vos
disse em Aparecida ‹ uma catequese social e uma adequada formação na
doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o ³Compêndio da
Doutrina Social da Igreja²» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do
Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em
determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o
direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a
promoção do bem comum (cf. GS, 75).
Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza
específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para
além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela
religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece
quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira
parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana»
(Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis,
17-IX-2010).
Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza
transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída.
Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas
dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas
in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo
apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino
confessional e plural da religião, na escola pública do Estado.
Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública
é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu
respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião
católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na
imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara
que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir
seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de
todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se
integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da
cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e
liberdade.
Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título
de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de
Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida
humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as
tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do
Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo
concedo a minha Benção Apostólica.
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