A afirmação é do governador da Bahia, Jaques Wagner. Quem observa o sotaque dele, não percebe que é carioca de batismo. O "erre" arrastado foi substituído pelo ritmo cantado da fala soteropolitana.
"Exilado" no estado desde os anos chumbo, Wagner construiu sua carreira política no movimento sindical petroleiro da Bahia.
Ganhou notoriedade nacional no auge do escândalo do "mensalão", quando respondia pela articulação política do governo Lula e virou uma espécie de porta voz informal do Planalto.
Nas eleições de 2006, o "galego", como é chamado pelo presidente, contrariou todas as pesquisas e venceu o representante da família Magalhães, Paulo Souto (DEM), que era o favorito, já no primeiro turno.
O resultado foi celebrado pelos petistas como o fim do "Carlismo", como era chamada a longa hegemonia de Antônio Carlos Magalhães no estado.
Nessa entrevista exclusiva ao Brasil Econômico, o governador avalia qual será a força dos novos quadros nordestinos no cenário nacional caso as urnas confirmem a nova "onda vermelha" na região.
Brasil Econômico - O "carlismo" acabou?
Jaques Wagner - Com essa denominação sim, embora eu nunca tenha usado esse nome. O sistema anterior se orgulhava de se dizer concentrador.
Não estou dizendo que o cara (ACM) não tinha valor, até porque eu me relacionava com ele e com o filho. Mas não vejo nenhuma hipótese de retorno.
A nossa vitória em 2006 representou um surpresa. A Bahia não é mais uma terra do carimbo. Respira democracia.
Os empresários jogam mais o jogo da meritocracia e da competição. Ninguém mais quer a volta ao passado.
O grupo político de ACM está fragmentado?
Não existe mais a figura de ACM, que vivia da aglutinação em torno do poder central. Ele era o grande tutor do sistema.
Passada essa eleição, se forem confirmados os números que temos nas pesquisas, vamos ter uma hegemonia construída.
A oposição, ou seja, o grupo "carlista", diz que o senhor cooptou os prefeitos do interior com verbas...
Foram eles que a vida inteira praticaram isso. A regra era assim: manda quem pode, obedece quem tem juízo ou medo. Era o chicote em uma mão e o dinheiro na outra.
Uma porção de prefeitos do PT não tinha acesso a quase nada. Eu quero trazer aliados por sedução, não por intimidação. Não é verdade que ando cooptando.
Acredita que Bolsa - Família substitui as promessas dos coronéis dos grotões baianos?
Saímos da esmola do coronel para uma política pública. Eu tenho capacidade de investimento de R$ 1 bi por ano, enquanto o Bolsa - Família injeta R$ 2 bilhões por ano. Isso é sangue na veia da economia.
As cidades do interior estão mudadas. (O Bolsa Família) acabou com os pequenos coronéis. Essa é uma grande política econômica que, aliás, o Suplicy já defendia lá atrás.
O cara achar que isso é um estímulo a preguiça é de uma crueldade arretada.
Depois de passar a eleição dividida entre o seu palanque e o do ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB), Dilma Rousseff declarou, na semana passada, que agora está só com o senhor. Como explica essa relação de amor e ódio do PMDB com o PT baiano?
Não tem amor e ódio. O PMDB baiano se voltou contra o PMDB nacional, o PT nacional, o presidente Lula e Dilma.
Tudo o que todos queriam era a mais ampla coligação aqui. Eles (PMDB) estavam sendo bem atendidos no estado e também em nível nacional.
Aí fazem um movimento ao contrário de tudo. Eu estava pacientemente preservando a aliança, mas ele (Geddel) achou que tinha que fazer o que queria.
Mesmo assim eu sempre disse a Dilma que ela como candidata não pode rejeitar apoio. O PMDB da Bahia quer abstrair a lógica que funciona no país inteiro.
Eu não vi nenhuma propaganda de José Serra em Salvador...
Ele não é um puxador de votos aqui. Quando o candidato do DEM (Paulo Souto) lançou seu primeiro comitê, não tinha lá nada do Serra. Só depois colocaram alguns banners. As pessoas não são comprometidas com a campanha dele.
Está na hora do Brasil ter um presidente nordestino?
Eu brinco que o presidente Lula vai sair da presidência executiva do projeto e vai para a presidência do conselho de administração.
Ele continuará sendo uma reserva moral, uma liderança presente. Mas é claro que haverá o fortalecimento da minha liderança aqui, do Eduardo Campos em Pernambuco, do (Marcelo) Déda em Sergipe.
Acredito que a montagem do ministério vai refletir o peso que o Nordeste tem. Até porque a política do presidente Lula é de desconcentração do desenvolvimento regional. Eu brinco com a Dilma que ela será presidente porque nunca premeditou isso.
Dilma é candidata natural em 2014?
Se ela tiver bem, naturalmente será. Se não, o clamor pela volta do presidente Lula será muito grande. Caso Lula e ela digam que não são candidatos, aí haverá um jogo político para ser jogado. Não estamos sozinhos nesse tabuleiro.
Por que o projeto do Porto Sul é tão criticado por ambientalistas?
Chamei aqui o Fábio Feldman e o Guilherme Leal, da Natura, quando soube que eles eram contra o projeto.
Eu lhe digo: se eu não ficasse no PT, meu segundo partido por opção seria o PV. Trabalho com o conceito de equilíbrio.
Demoramos um ano e meio escolhendo o local onde está posicionado o Porto, que não é industrial, mas de recepção e envio de mercadorias que está localizado em uma área de expansão urbana de Ilhéus.
A área que as pessoas dizem ser uma concentração de grande biodiversidade está 15 km ao norte do porto. Topo qualquer discussão se for de argumentos, mas se for de dogmas aí não dá.
O que deve ser feito da Sudene?
Precisa ser abastecida com orçamento e ter uma visão macroeconômica do desenvolvimento do Nordeste. Caso contrário, ela é uma agência de concessões de vantagens fiscais. Falta pensamento crítico lá dentro.
O que acha da transposição do Rio São Francisco?
Sempre defendi. O rio não é do baiano ou do pernambucano, é nacional.
Qual será impacto dos escândalos recentes na campanha de Dilma Rousseff?
Toda denúncia tem que ser apurada, mas o povo brasileiro não vai engolir essa metodologia de tentar criminalizar o governo do presidente Lula e a nossa candidata.
Todos os partidos e governos vão ter gente que faz coisa errada. Dilma tem urticária com coisa errada. Acho que ela está mais triste do que preocupada.
O problema da questão com a Erenice é o número de familiares. Dilma já tem muito voto cristalizado. Esse não balança. O sujeito pode até ficar puto, se arretar, mas não muda o voto.
Por que o PV baiano, que esteve no seu governo, não apoiou sua reeleição?
Essa história foi um mal estar muito grande. Eu lhe pergunto: a Marina lançou candidato no Acre? Não. Quem o PV apoia no Maranhão? A Roseana.
Não entendo qual o problema do PV comigo aqui. Eu devo ser um horror. Falei com a Marina lá atrás e ela disse que o PV estaria comigo aqui.
No entanto, logo lançaram um candidato próprio. Mas olhe, não quero entrar nessa briga. Gosto dela
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